terça-feira, 12 de abril de 2011

Jornada ao Passado


 Diretor de “Uma Noite sobre a Terra (1998), “Redemoinho” (2000) e “Polytechquine” (2009), Dennis Villeneuve, canadense de Quebec, se supera com o intrigante “Incêndios”, indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro de 2010. Apesar de Baseado numa peça de sucesso de Wajdi Mouawad, o filme não revela suas origens teatrais, pelo contrario, ele cria sua própria identidade como veículo de narrativa.
A história começa no escritório de um advogado (Rémy Girard) que lê para um casal de gêmeos (Mélissa Désormeaux-Poulin e Maxim Gaudette) o testamento da mãe que acaba de morrer e também lhes entrega duas cartas. Uma deve ser dada para o pai, que eles acreditavam estar morto e a outra para o irmão que eles nunca souberam que existia. A partir daí a trama é contada em dois tempos. A busca dos irmãos pelo passado da mãe e a vida da própria mãe jovem, quando ainda morava no Oriente Médio devastado pela guerra entre cristãos e mulçumanos.
Como já disse Jean Epstein, o cinema é um instrumento para produzir e representar o tempo, o que fica muito claro ao longo do filme. O tempo dentro de “Incêndios” é inteiramente criado e modelado pelo diretor que alterna imagens rápidas e cenas que se passam lentamente, causando impacto no espectador.
Como o filme é todo recortado e narra diferentes momentos da vida de todos envolvidos na trama, a forma como as personagens e situações são apresentadas é fundamental para a compreensão da história. Por conta do recurso de legendas usadas em vermelho , o espectador sabe do que se trata cada pedaço da história e consegue juntá-los mentalmente.
Outro recurso interessante é ausência de som em algumas das cenas mais tensas. O silêncio parece ajudar ainda mais na criação do suspense. Ao mesmo tempo são apresentadas cenas do mesmo tipo com uma trilha sonora de tirar o fôlego. O filme apresenta recursos completamente opostos, mas que funcionam da mesma forma e ajudam na criação da identidade da obra.
O momento que mais me marcou é quando a avó de Nawal Marwan (Lubna Azabal) leva o bisneto para a adoção. Nessa cena ela usa um manto negro que significa, dentro da mitologia grega, a morte simbólica, ou seja, um rito de passagem da sua juventude para sua nova vida sem o marido e o filho. Outra imagem interessante é a do ônibus pegando fogo no segundo plano e a protagonista ajoelhada desesperada na frente. O filme todo apresenta cenas fortes como essa, mas sem exageros que poderiam impactar demais o espectador.
Se existem filmes com finais reveladores, “Incêndios” pode ser colocado entre os melhores desse grupo. O filme termina de maneira impactante, revelando sutilmente e através de metáforas quem é o pai e o irmão dos gêmeos. Uma história com desfecho nunca visto, mas possível dentro de um cenário de guerra, amores e mentiras.

terça-feira, 5 de abril de 2011

“Cara imaginação, o que eu amo, sobretudo em você, é que você não perdoa”.
André Breton

domingo, 16 de maio de 2010

Eu sei, mas não devia

Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.


A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E, porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E, porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E, porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E, à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.

A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora. A tomar o café correndo porque está atrasado. A ler o jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem. A comer sanduíche porque não dá para almoçar. A sair do trabalho porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.

A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra. E, aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja números para os mortos. E, aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz. E, não acreditando nas negociações de paz, aceita ler todo dia da guerra, dos números, da longa duração.

A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisava tanto ser visto.

A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita. E a lutar para ganhar o dinheiro com que pagar. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer fila para pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagar mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas em que se cobra.

A gente se acostuma a andar na rua e ver cartazes. A abrir as revistas e ver anúncios. A ligar a televisão e assistir a comerciais. A ir ao cinema e engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.

A gente se acostuma à poluição. Às salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural. Às bactérias da água potável. À contaminação da água do mar. À lenta morte dos rios. Se acostuma a não ouvir passarinho, a não ter galo de madrugada, a temer a hidrofobia dos cães, a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta.

A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada, a gente molha só os pés e sua no resto do corpo. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.

A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele. Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se de faca e baioneta, para poupar o peito. A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que, gasta de tanto acostumar, se perde de si mesma.


(Marina Colasanti)

Impossible is nothing.

“É preciso ter um desprezo saudável pelo impossível. É preciso tentar coisas que a maioria das pessoas não tentaria.”

segunda-feira, 26 de abril de 2010

"Agora, vem você e esse seu silêncio, querendo transformar o que foi espontâneo em mim, em culpa..."

NOME PRÓPRIO

Ninguém vive a paixão impunemente.
A intensidade é uma doença contagiosa.
E eu não concebo a vida sem contágios.
Sei sobre a dor da solidão, a falta de ar e a perda de chão.
Sei que nada mais vai ter importância.
Sei que o mundo vai ficar pequeno e perder o sentido
.

domingo, 21 de março de 2010

Hollywood(land)



Antes de ser o que é, antes de perder o "LAND".