Diretor de “Uma Noite sobre a Terra” (1998), “Redemoinho” (2000) e “Polytechquine” (2009), Dennis Villeneuve, canadense de Quebec, se supera com o intrigante “Incêndios”, indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro de 2010. Apesar de Baseado numa peça de sucesso de Wajdi Mouawad, o filme não revela suas origens teatrais, pelo contrario, ele cria sua própria identidade como veículo de narrativa.
A história começa no escritório de um advogado (Rémy Girard) que lê para um casal de gêmeos (Mélissa Désormeaux-Poulin e Maxim Gaudette) o testamento da mãe que acaba de morrer e também lhes entrega duas cartas. Uma deve ser dada para o pai, que eles acreditavam estar morto e a outra para o irmão que eles nunca souberam que existia. A partir daí a trama é contada em dois tempos. A busca dos irmãos pelo passado da mãe e a vida da própria mãe jovem, quando ainda morava no Oriente Médio devastado pela guerra entre cristãos e mulçumanos.
Como já disse Jean Epstein, o cinema é um instrumento para produzir e representar o tempo, o que fica muito claro ao longo do filme. O tempo dentro de “Incêndios” é inteiramente criado e modelado pelo diretor que alterna imagens rápidas e cenas que se passam lentamente, causando impacto no espectador.
Como o filme é todo recortado e narra diferentes momentos da vida de todos envolvidos na trama, a forma como as personagens e situações são apresentadas é fundamental para a compreensão da história. Por conta do recurso de legendas usadas em vermelho , o espectador sabe do que se trata cada pedaço da história e consegue juntá-los mentalmente.
Outro recurso interessante é ausência de som em algumas das cenas mais tensas. O silêncio parece ajudar ainda mais na criação do suspense. Ao mesmo tempo são apresentadas cenas do mesmo tipo com uma trilha sonora de tirar o fôlego. O filme apresenta recursos completamente opostos, mas que funcionam da mesma forma e ajudam na criação da identidade da obra.
O momento que mais me marcou é quando a avó de Nawal Marwan (Lubna Azabal) leva o bisneto para a adoção. Nessa cena ela usa um manto negro que significa, dentro da mitologia grega, a morte simbólica, ou seja, um rito de passagem da sua juventude para sua nova vida sem o marido e o filho. Outra imagem interessante é a do ônibus pegando fogo no segundo plano e a protagonista ajoelhada desesperada na frente. O filme todo apresenta cenas fortes como essa, mas sem exageros que poderiam impactar demais o espectador.
Se existem filmes com finais reveladores, “Incêndios” pode ser colocado entre os melhores desse grupo. O filme termina de maneira impactante, revelando sutilmente e através de metáforas quem é o pai e o irmão dos gêmeos. Uma história com desfecho nunca visto, mas possível dentro de um cenário de guerra, amores e mentiras.
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